
A mulher parou na calçada, e abriu seus olhos castanhos abstratos.
Olhos rasgados.
Lembrou-se por um momento de Caetano Veloso, que sempre a fazia
lembrar-se de exílio, Londres, caracois, cachecol e Roberto.
Olhou para os próprios pés, que nunca a levaram muito longe.
Lembrou-se da juventude, e de quantas vezes tentara obstinadamente
ir para a Austrália.
A Terra baixa e vermelha, marsupiais simpáticos.
A Terra que o mundo ficava em cima.
Pensou em como todas as coisas são abstratas.
Não consegue-se tocar nada!
Era estranho pensar em todas as possibilidades
que fora eliminando ao longo da vida.
Uma neblina ouropretana a envolvia de saudade.
Saudade de coisas atoas, fluidez e azul desbotado.
Sua terrível vulnerabilidade, sua asquerosa sensibilidade.
Mesmo ali na calçada, os paralelepípedos inutéis, o mesmo sol.
Ela sentia seus poros vivos, tangendo os sons e o suor.
Precisava atravessar a rua, pois era certo que seus cabelos
pegariam fogo, lá do outro lado, na sombra; ouviria o mar,
que a faria lembrar-se de Caetano, exílio e caracóis.