segunda-feira, 20 de setembro de 2010


Desconhecido.

O destino me pegou.

Sorriu-me; alvos dentes.

Todas as pétalas no chão,

e o vento...

As coisas simples da vida.

A disposição de todas as coisas.

A nomenclatura dos seres.

Ensaio a peça.

A madrugada assiste mais

um desenrolar da noite;

eterno retorno!

sábado, 26 de junho de 2010

Herança.


Eu deixo pra depois.

O que eu não posso.

As coisas que não são

pra hoje.

Deixo pra depois

da letargia.

Deixo sequenciadas dentro

da pasta que guardo em mim.

Datilografadas numa folha amarela

com pequenos pássaros marrons.

Deixo minhas tempestades.

Meus raios solares que atravessam

janelas de vidro.

Minha perplexidade, e alguma mecha

do meu cabelo; para que se guarde a cor.

Eu deixo sorrisos soltos e talvez raros,

mas de grande verdade.

Eu deixo pra depois que se passem

as coisas que são necessárias.

Um veio que sempre corre molhando

a esperança, quando ela ameaça secar.

Deixo um par de tênis velho para tardes

de outono, e um olhar de cílios

longos, de onde saem toda luz que preciso!

È uma pasta pequena, mas onde cabem

todos os sonhos do mundo!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sonífero.

O imenso não é tão grande.
O que o torna imenso é o vazio.
Cortes na carne e sal para refrescar.
Segue-se no outro dia.
O sol alto, a fumaça encaixotada na
garganta, o despertar.
Toda palavra é arma e rima.
Toda sorte e sortilégio, formam
o que virá.
Tranquilo, infalível, visceral.
O intervalo da noite.
A mão passada na cabeça, o sonho.
Sono...Amanhã deixo minhas pupilas
à mostra.
A manhã deixa suas pupilas à mostra!



terça-feira, 15 de junho de 2010

Percepções.

...E eu ainda continuo soprando as mãos com meu hálito de bala halls.
È um gesto involuntário, de tempos.
Ao entrar no ónibus, o repeti sem ver; pela lembrança, pelo frio.
Pequenas percepções sensoriais.
A moça da poltrona à frente, tirou um pequeno espelho de bolsa
para retocar o batom; o que me fez reparar em suas unhas.
Eram unhas bonitas. Curvadas, longas, de onde a cor sangue brotava
do esmalte. Pequenas percepções...
Olhei para as minhas próprias unhas.Eram pequenas, curtas, e raramente esmaltadas.
Alguma cutícula aparecia.
Analogicamante muito diferentes das unhas da moça da
poltrona à frente.
Olhei novamente minhas mãos. Tão normais!
Brancas e pequenas, as unhas curtas, os dedos nodosos...
Me esqueci daquilo.
Os vidros das janelas escorriam água de frio, a poltrona apertada,
e a distância do engarrafamento.
Sim, era como se estivéssemos mesmo dentro de uma garrafa...
Apertei a blusa de lã, soprei as mãos e esperei o sono.

domingo, 30 de maio de 2010

Domingueira.


Gostaria de deixar alguns frisos aqui.

Nem mesmo sei direito o efeito disso.

Parei um momento para visualizar meu

pensamento. Penso em coisas longínquas...

Uma manilha rabiscada de carvão, foguetes

num dia doze de Outubro, um velocípede

bem antigo, cacos de louça quebrados pelo

quintal...

Numa tarde brusca e escura, tempestade.

As telhas do quarto quebradas, e a chuva vazada...

Uma paixão por elementos, um pé de laranja lima,

uma longa escadaria conduzia.Eu não sabia que

havia além. Além de minha alergia à inúmeros

tecidos e sintéticos da vida, além de minha sempre

estrepolia, além de minha cicatriz na sombracelha.

Eu parei de perceber todas as coisas; no momento

em que todas as coisas se aperceberam de mim.

Uma permuta sem nenhum consentimento. Foto: Gabriel Andrade.


Tá bom.

Tinha uma pedra no caminho.

Meu amigo poeta, eram tantas pedras...

Nem te conto.

Era muita obra de arte a ser modelada!

Pequenos, eram eu e o martelo.

Mas como era enorme a teimosia!

E veja só, meu amigo de tristeza e herança,

não houve uma que não tenha se tornado grão!

Grão para ser semeado em tanta aridez macia!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Bilhete.


Nesse dia tosco, busco olhar além.

Paredes entre montanhas.

As aves soltas, olhares baldios e tristes.

As coisas soltas e baldias.

Pensei criar um novo movimento.

Uma rebelião.

Pensei em descer além do patamar

das coisas que não entendo.

Pasmaceira.

Buscar além do gole de um dia de vida.

Um porre de vida.

Olhei para aqueles lados com arestas,

desisti de aparar, de guardar. Minhas folhas

estão crescendo, num indo sem fim!

Pouco falta para alcançar um ponto sem volta.

Acho que no fundo, sinto imensa inveja !

Dessas coisas de olhar...

Dessas coisas concisas...

Dessas coisas fáceis...

De muitos caminhos.

Pasmaceira.

Essa inveja, ainda me mata!